A penitência tipográfica
Ainda no mês passado apareceu uma encomenda para gravar várias placas:
No espírito de Cristo está toda a nossa vida.
Crisma 2026 + logótipo da paróquia.
O trabalho até ficou porreiro. O problema não era a frase, o Crisma, o logótipo ou ter de repetir a gravação vinte vezes.
O problema eram as placas.

Vinte pequenos testes à sanidade
Queriam entregar as placas já cortadas num formato comprido e estreito, sensivelmente a geometria de um palito com ambições.
Colocar uma placa dessas perfeitamente direita na máquina é possível. Colocar vinte, uma a uma, e garantir que todas ficam exatamente com o mesmo alinhamento já pertence a outra profissão.
Eu gravo a laser. Não sou ninja a colocar placas.
Uma diferença minúscula na posição transforma rapidamente uma série organizada numa procissão de frases ligeiramente inclinadas. E depois ninguém quer ouvir que a madeira decidiu procurar o seu próprio caminho espiritual.
Ainda havia o logótipo da paróquia. Naquele tamanho, gravar as letras já era menos design gráfico e mais microfilmagem religiosa. Se as placas fossem ainda mais estreitas, o orçamento teria de incluir vinte lupas como acessório de leitura.
Primeiro gravar, depois cortar
A solução foi recusar as placas pré-cortadas e fazer as coisas por uma ordem que não dependesse de poderes sobrenaturais: preparar a disposição numa peça maior, gravar tudo com o alinhamento controlado e cortar as placas depois.
O laser repete posições muito melhor do que eu consigo equilibrar vinte palitos. Não é falta de fé. É excesso de experiência.
O resultado
As placas ficaram direitas, o trabalho ficou bonito e ninguém precisou de assistir a um adulto a tentar alinhar madeira fina durante uma tarde inteira.

Aceito gravar a mesma frase vinte vezes. Só não me peçam para fingir que colocar vinte placas estreitas à mão é controlo de precisão.
Até num trabalho de Crisma, a fé não substitui um bom gabarito.